A mudança brusca de rotina que a pandemia do Coronavírus causou na vida e no trabalho das pessoas em 2020 trouxe impactos também para a saúde mental. É o que vêm mostrando diversos estudos já publicados em revistas científicas. O cenário de incertezas sanitárias e econômicas exacerbou significativamente os problemas emocionais, como ansiedade, estresse e depressão. Nunca o Janeiro Branco, movimento de alerta sobre saúde mental, foi tão importante.

Prova disso é a amostra de advogados e advogadas que buscaram a plataforma de saúde mental CAASPsico, lançada em abril de 2020 mediante parceria da Caixa de Assistência dos Advogados de São Paulo com a Bee Touch, startup de atenção psicológica, que permitiu mensurar o quanto a advocacia, ou parte dela, ficou suscetível com a pandemia, o isolamento social e o trabalho remoto.

Dos 274 pacientes que buscaram apoio tão logo à plataforma foi ao ar, 37% o fizeram especificamente por motivo de ansiedade, estresse ou depressão; outros 28% para autoconhecimento e desenvolvimento pessoal; 17% por dificuldades em relacionamentos familiares; 16% por problemas no trabalho e na carreira. 21% dos advogados e advogadas que usaram os serviços da plataforma relataram a procrastinação como o principal efeito da pandemia sob sua atividade profissional. Na crise, faltou à advocacia a famigerada inteligência emocional, habilidade de reconhecer, entender, processar e expressar as próprias emoções de maneira saudável, garantindo saúde mental.

“Hoje, sabemos que o sucesso profissional também depende da capacidade de lidar com as emoções. Quem sabe enfrentar seus medos, inseguranças e manifestar de forma apropriada esses e outros sentimentos têm maior êxito profissional e pessoal”, afirma Ana Carolina Peuker, doutora em Psicologia e CEO da Bee Touch.

Há algum tempo a inteligência emocional é uma das características mais valorizadas no mercado de trabalho e a estimativa é de que se torne cada vez mais recorrente a procura por profissionais que dominem essa soft skill e consigam manter uma boa saúde mental, em especial nos momentos de crise.

Já se mensurou o custo da negligencia da saúde mental nas empresas, na economia e na vida das pessoas. A Organização Mundial da Saúde estima que os transtornos depressivos e de ansiedade, por exemplo, custem 1 trilhão de dólares à economia global a cada ano em perda de produtividade. No Brasil, esses distúrbios estão entre as principais causas de afastamento do trabalho, de acordo com o Instituto Nacional de Seguro Social (INSS). Em 2017, só os transtornos de ansiedade foram responsáveis por 28,9 mil afastamentos; a depressão, por 43,3 mil.

Cada transtorno psíquico tem características próprias, mas ,de modo geral, acabam por ser ativados pelos mesmos circuitos, isto é, as emoções e os sentimentos. Desde meados do Século XX, trabalhos científicos indicam que essas sensações são concretas e podem alterar sobremaneira o bem-estar e a saúde humana.

Wimer Bottura Júnior, psiquiatra e psicoterapeuta, presidente da Associação Brasileira de Medicina Psicossomática (disciplina que estuda os efeitos de fatores sociais e psicológicos sobre processos orgânicos do corpo e sobre o bem-estar das pessoas), detalha essa relação: “A tristeza tende a depreciar o sistema imunológico; o medo gera adrenalina, preparando o organismo para lutar ou correr; o afeto desperta a necessidade do toque e assim por diante”.

É por isso que para melhorar a qualidade de vida de pessoas internadas, principalmente crianças, muitos hospitais contam com atividades bem humoradas, como forma de entretenimento e até de tratamento complementar. O riso aumenta a produção da endorfina, um relaxante natural e anestésico capaz de tornar a dor mais tolerável ou até mesmo aliviá-la, ainda que temporariamente, além de estimular o sistema imunológico.

Não se trata de dizer que há emoções boas ou ruins. Os especialistas entrevistados para esta reportagem reforçam que todas as emoções são importantes, pois constituem mecanismos de sobrevivência que nos preparam para tomadas de decisões. Peuker explica: “A tristeza, por exemplo, quando transitória, tem papel extremante importante dentro da dinâmica da vida. Ela pode ser usada para a reflexão. Ninguém reflete estando eufórico o tempo todo, achando que está tudo ótimo. A tristeza oportuniza um olhar para dentro de si”.

Bottura corrobora: “A inveja pode ter várias formas. Se positivamente gerida, pode ser o combustível para que a pessoa vá em busca de seus próprios sonhos. Se má empregada, pode ser danosa e destrutível”.

Por outro lado, falar sobre as emoções e os sentimentos ainda é visto como tabu para muita gente. Persiste o estigma aqueles que sofrem com transtornos psíquicos, enxergados como pessoas sem fé, fracas.

Segundo Peuker, é fácil entender por que tais preconceitos ainda não foram esquecidos: “De forma geral, nossa cultura não estimula ambientes psicologicamente seguros. Só podemos crescer e nos desenvolver quando podemos nos expressar de forma livre, sem receio do julgamento externo. Em uma era mediada por ‘filtros’ de redes sociais, com os quais mascaramos a realidade, torna-se cada vez mais difícil assumir qualquer fragilidade ou possível humanidade”.

Para a psicóloga, a pandemia intensificou o uso das redes sociais e as ocorrências negativas que ela é capaz de causar. Exemplo é a Síndrome do Impostor, uma crença interior de que não se é bom o suficiente naquilo que se faz, de que se é uma farsa e que a qualquer momento será desmascarado. “Trata-se de uma síndrome que afeta profissionais bem sucedidos, que pode repercutir negativamente na carreira e na vida emocional, acarretando níveis maiores de ansiedade, depressão, insatisfação com o trabalho e Burnout (estado de estresse crônico)”, salienta Ana Carolina Peuker.

É fundamental aprender a processar as emoções e os sentimentos antes mesmo que quadros graves, como os transtornos e as síndromes, se instalem. Também nesse sentido o auxílio psicológico especializado tem muito a oferecer.  “Todo o trabalho da psicologia tem o intuito de ajudar as pessoas a compreender e ressignificar suas emoções e a trabalhá-las da forma mais positiva possível, incluindo aqueles mais desagradáveis, cuja expressão pode estar sendo negativa”, declara Bottura Júnior.

Com o objetivo de alertar advogados e advogadas para esse fato, o Conselho Federal da OAB disponibiliza para download a Cartilha da Saúde Mental da Advocacia. Em linguagem simples e didática, o material resgata situações corriqueiras que podem ser vivenciadas pelos profissionais do Direito e que, catalogadas, ajudam na identificação de problemas. Além disso, aponta algumas condutas que favorecem o bem-estar psicológico, diminuindo a ansiedade e o estresse, como a prática de atividade física e a meditação ou mindfulness. (Faça o download AQUI)

A organização da cartilha é da conselheira federal da Ordem Sandra Krieger, coordenadora do Programa da Saúde Mental da Advocacia, uma das peças que compõem o Plano Nacional de Prevenção das Doenças Ocupacionais e da Saúde Mental da Advocacia, oficializado pelo Provimento 186/2018 do Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil.

Segundo Krieger, a terceira edição da Cartilha de Saúde Mental da Advocacia já está em elaboração, devendo ser lançada em 2021 e já levando em conta os problemas decorrentes da pandemia.

“A pandemia foi devastadora para todos e todas e de um modo muito destacado para a advocacia, que passou a conviver com as limitações no exercício da atividade com fóruns fechados, processos inacessíveis e grandes dificuldades financeiras”, constata a advogada.